1. Matta-Clark nos encoraja a pensar o Dissenso de Rancière como um desdobramento tardio do Impensado de Rimbaud

 

 

Você por acaso já partiu uma casa ao meio? Gordon Matta-Clark já.

 

Matta-Clark é portanto "um amuleto no coração dos empreendedores"; não apenas porque foi capaz de partir uma casa ao meio, mas, sobretudo, porque, ao partir aquela casa de New Jersey em 1974, ele concretizava um princípio vanguardista que se converteria numa das leis que governam implicitamente a arte contemporânea: manifestar o que ainda não foi pensado.

 

Esse "Impensado", vislumbrado poeticamente por Rimbaud, talvez pudesse hoje ser atualizado teoricamente pelo "dissenso" de Rancière. O "longo, imenso e racional desregramento de todos os sentidos" de que falava o poeta no século XIX poderia dar vez à "redefinição das coordenadas do visível, do dizível e do factível", de que fala hoje o filósofo.

 

No entanto, conceituar não é manifestar - sobretudo quando se trata do que ainda não foi pensado (ou daquilo que não é nem mesmo pensável). Para ser consumado, esse "dissenso" teria que percorrer caminhos que os próprios "pensadores" desconhecem, uma vez que eles costumam nos fornecer apenas análises e sínteses dos "regimes da arte".

 

 

 

2. Matta-Clark sugere que a anti-pedagogia é uma condição para a emergência do Dissenso

 

 

Partir aquela casa ao meio e, ao que parece, provocar um "dissenso", pressupôs rejeitar qualquer tipo de "transmissão de mensagens", qualquer representação do que já foi pensado (mesmo que o próprio Matta-Clark aludisse à "sociedade dividida" do seu tempo, quando falava da Splitting House). Partir aquela casa ao meio dificilmente poderia ser entendido conforme um regime de "mediação representativa" baseado na "tradição mimética".

 

Nunca saberemos ao certo o que a poeira de signos que sobrou daquela casa - ou que se levantou a posteriori - significa ou significará. Seja em ato, seja enquanto índice de um ato, a Splitting House emerge sempre como uma singularidade porque passa ao largo de regras sintáticas, correspondências semânticas, códigos formais, modelos metodológicos e premissas utilitárias.

 

Ao obscurecer os possíveis "significados" de sua própria intervenção na realidade e, desse modo, desafiar todo e qualquer discurso, Matta-Clark refuta um dos três regimes da arte propostos por Rancière - onde há "modelo pedagógico" não pode mais haver arte, somente design, propaganda ou "palavras de ordem".

 

 

 

3. Matta-Clark indica que o cruzamento dos regimes da arte consiste numa técnica para a produção do Dissenso

 

 

A Splitting House também desafia o próprio lugar da experiência do "dissenso" (o simples fato de Rancière situá-la em "regimes da arte" já sugere que o"dissenso" despontaria antes de regimes outros, ou, mais precisamente, da própria criação de outros "regimes sensoriais"). Assim, o "dissenso" depende, para ser construído e apreendido, de procedimentos que escapam tanto das estratégias estabelecidas pela filosofia quanto do fluxo inconsciente da "práxis vital". Nos termos de Rancière, Matta-Clark, em vez de atuar segundo determinado "regime", mistura, no tempo e no espaço, os dois regimes  que restaram dos três: o "estético" e o da "imediatez ética". Enquanto o primeiro estaria fundado na desconexão entre "forma" e "efeito" de "objetos sem função" expostos em espaços supostamente "neutralizados", o segundo decorreria da "intervenção direta" na vida cotidiana ou da "encarnação de pensamentos em ações".

 

Matta-Clark explora então o mundo dos negócios, da política e do direito, sem abdicar, todavia, dos meios de formalização, experimentação e visualização desses agenciamentos. Se aquela anti-pedagogia constitui uma das condições de emergência do "dissenso", o cruzamento dos regimes deve ser aqui reconhecido como uma das técnicas decisivas para a sua concretização. A "eficácia" de tal técnica poderia ser verificada pela medida em que favorece:

 

a) a superação de uma ideia de arte (modernista) confinada num "regime estético" e suas devidas convenções;

 

b) a interação entre "regimes" estéticos e éticos que desestabiliza as próprias distinções entre ficção e realidade;

 

c) a abertura de "regimes" ainda impensados, capazes por eles mesmos de suscitar "dissensos".

 

 

 

4. Adeus, Gordon

 

 

Os "dissensos" que a Splitting House continua a disseminar não deveria encobrir os consensos que ela reforça. Partir uma casa ao meio exigiu de Matta-Clark um voluntarismo e uma relação com o campo da arte que se mostram ainda hoje problemáticos.

 

Desistiríamos facilmente de agir se acreditássemos que a produção de "dissensos" está sempre subordinada a acordos com investidores e instituições. Também desistiríamos facilmente se uma parte considerável do nosso tempo vivido tivesse que ser dedicado a problemas de gestão ou a tarefas especializadas. Mas felizmente sabemos que não tem de ser assim. E é por isso que devemos tomar certa distância de Matta-Clark.

 

Quem desconfia de mitologias contemporâneas percebe que mesmo a expansão e o embaralhamento dos "regimes da arte" pode retroalimentar seus próprios dispositivos de poder. Foi necessário arranjar um ônibus e organizar visitas guiadas à Splitting House para um seleto grupo de meros espectadores. Por outro lado, negligenciar o "capital simbólico" que Matta-Clark dispunha para realizar e dar visibilidade ao seu trabalho não deixa de ser hoje um reforço para a construção de um consenso mais eloquente em torno do artista.

 

Um "amuleto no coração" parece realmente desejável para os empreendedores. Mas se considerarmos que todo empreendedorismo é também alienação, violência e ineficácia, caberia agora interrogar sobre o que Matta-Clark foi capaz de criar e vivenciar enquanto não empreendia.

 

 

Gentil Porto Filho