Apenas

 

A minha saudade

É tão intensa

Tão fisiológica

Tão crua

Que um pedaço de terra moçambicana

Eu a comeria

Neste medo

De perder a lembrança de seu sabor.

 

 

Meu país

 

Eu tenho como país,

Uma asa negra de vento.

Eu tenho como país,

Migalhas de acácias rubras.

Eu tenho como país,

Espadas fugazes de madrugadas.

Eu tenho como país,

Um veludo satânico de mulher.

Eu tenho como país,

Uma bússola gangrenada de esperança.

Na verdade eu só tenho como país,

Essa insónia teimosa dentro de um sonho vivo.

 

 

E tu, lua?

 

E tu, lua?

E tu, Lua?

Como tens o desplante de aparecer

com teus imaculados véus de noiva,

sorridente casta

sobre esses campos do Kunene

plantados de assassinos?

E tu, lua?

Como é que finges nada ter a ver

Quando caricias sensual

esses corvos louros fardados de aço,

quizumbando sorrateiramente

nos milheirais?

E tu, lua?

Com que cara passeias teus cabelos

de vênus platinadanas tripas expostas

das mulheres homens e crianças,

que os teus amantes sangrentos do Apocalipse Now,

por prazer transformaram nos teus braços

em carnavais de sangue?

E tu, lua?

paraste para pensar

o que vai sair desse teu ventre,

inchado dos gritos de incautos namorados

que mergulham nos êxtases dos teus pântanos de leite,

nessas noites cúmplices em que emprestas

as tuas foices de luz

para indicar o caminhos do assassinato

aos teus amantes Boers?

 

 

Prólogo, como um epitáfio

 

Não quero compromissos com as palavras e os seus sons

E se distribuo em linhas irregulares o meu dizer

Não vejo nisso versos

Mesmo se a rima insiste

Não chamem de poesia o que escutarem

Ainda que minha fala, por vício de forma e cultura,

Pelo impossível de ser inteiro dentro do sentimento

E da razão

Traga sabores de outras palestras

De poetas oficializados

 

Não quero este uniforme

Não quero essa imortalidade

Não por desprezo ou falsa ambição mas apenas

No medo convicto e construído também

Que mais uma carapaça sedimente sobre as minhas outras carapaças

E me descubra cada vez mais mole, difuso, róseo e plasmático

Que nunca

Eu, pobre de mim, que nos meus sonhos falados

aspiro ao diálogo das baionetas

Mas isso é outra conversa

Agora, com a força de quem vai morrer

E na escassez do tempo que pede às palavras o seu último significado

Apenas mais uma vez isto.

 

O meu imenso orgulho de homem não tem mais segundos de bate-papo

E na sua eminência de ser à beira do destruído

Procura um significado mais total que o poeta pode aspirar

Um poeta que acredita de vez na força da poesia

Como um instrumento de transformação do homem

Ele e os outros

Breve, um verdadeiro poeta

Não eu, que renego a vestimenta

E nos caminhos da verdade sou um aprendiz

Tanto mais aluno, que certo de ler na minha palma da mão

Certezas que fazem de mim um homem

 

E destas convicções sem mácula

A minha angustia de usar palavras

De não ser na guerra nem o gesto

Nem o som

Nem o silêncio

Mas a ausência

 

Pudesse ter eu coragem de fazer das minhas tripas o abominável

Instante de um quadro de luta

 

 

Ruy Guerra