«I am the South America, I know that you will not know

 

But now I am a cowboy, I am the gold, I am you»

 

(Fernando Branch, Márcio Borges and Lô Borges, Para Lennon and McCartney)

 



 

The border place is, according to José de Sousa Martins, the advance of capital on the territories considered occupied or insufficient occupied by the capital itself. It is also the advance of the major fronts of the national societies on the not incorporated territories.

 

The capitalism as a political-economic order, demand a centrality beyond the social division, which through the technological machine, produces wars, globalizing their ways of production and cultural practices. However, at the same time that the societies westernise, symbolic phenomenas resist in the experience of the fronteer. It is about the condition and singularity of theses spaces where the contoursare not fixed; the Latin America, Africa, Caribbean, Eastern Europe, Middle East, Asia regions and the suburbs of all urban centers.

 

The border is the border of the human. The achievement of the territories is the searching of the other. The fronteer is not only the territorial or economic which the capital advances, it is the border of thought that phagocyts the other.

 

In these border spaces, where world visions (dis) encounters, which different historic times get in conflict, producing distinct groups disputes, redefining the limits, violence and resistance. We believe that in these places ideological-political conflicts take place in a more intense way, also ethnic and aesthetic that influences directly the way of doing and thinking the cinema.

 

The idea of the human border unfolds in the experience of the cinema, mainly, of the cinema that faces the industry, done in several parts of the world, and also deeply marked by the territorial dimension.

 

As formas narrativas ficcionais consolidadas não nos representam! Motiva-nos a diversidade dos tipos de mise en scène, dos procedimentos de investigação e percepção da realidade humana. Interessa-nos o cinema do enfrentamento, da alteridade e do devir. O cinema como produção humana e não produção de mercadorias.

 

The consolidated fictional narrative forms do not represent us! Motivate us the diversity of the types of mise en scène, of the investigation procedures and the perception of the human reality. The confronting cinema interests us; the cinema of the alterity and of the becoming. The cinema as human production, not as commodity production.

 

The hegemonic industrial cinema tries to expand itself by creating tentacles of a certain art cinema and circuits of major festivals that celebrate everything but the diversity. However, the border experience resists! In the excesses, exacerbations, mutations, subversions and discoveries of the imagination processes of the liberation states of intensity.

 

The imagination is not only mediator between understanding and sensibility, it has its own dynamism, scheme free, organized bodies, constituted individuals, fixed identities, consolidated psyches. It is like Luis Sérgio Duarte da Silva thinks, at the border “we learn to live with contingence, incompletion, the historicity. In the land where everything has to be done, the rule is the improvise of the swordsman, bricolage of the wild thought.”

 

In face of the predominant ways of film language, in the documentary film is produced the instability of the camera with the ones that it films, and with the ones that act with it. The documentary will always be the power, ontology of the camera presence, since it is the human eye extension. It does not matter for us the documentary concession, seized by publicity and by journalism.

 

We believe in the language borders. That is why the experimental film as a tradition of bifurcations, superimpositions, uncontrollable experiences of the narratives and non-narratives. The experimental cinema as an acceptance of the image language in movement is capable of reorganize itself infinitely in new possibilities in new times. The experimental film brings a perception issue above all aesthetic, style or ideology.

 

Accordingly, searching from impermanent fields, wishing to cause displacement and opportunities of free experience, the Fronteira – International Documentary & Experimental Film Festival takes place in Goiânia, in the state of Goiás, in a city of the brazilian border, gray area of the civilization. A city build in the middle of nothing, in 1930, to modernize the brazilian inland, divided by the few cities where a railroad would run, and some others from the gold time, farms, cowboys, cattle and Indians.

 

Goiânia, between the metropolis and the province, despite all the progress ideology, is today pressured by the political, social and aesthetic conflicts, social conflicts of the border, that face cultural values traditional and modern. A new city that tailors ideas, opened to the adventure of the not known and of the not being able to determine rules, however, marked by the oppression of the extended process of accumulation of the capital. An environment in which the fractures of the extreme west amazes us. It is in this place where the Fronteira is born, the desire for attention of the new, the emergency, the present days, rather than settling in the eternal.

 

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Eu sou da América do Sul / Eu sei vocês não vão saber

Mas agora eu sou cowboy / Sou do ouro, eu sou vocês”

(Fernando Branch, Márcio Borges e Lô Borges, Para Lennon e McCartney)



 

O lugar da fronteira é, segundo José de Sousa Martins, o do avanço do capital sobre territórios considerados não ocupados ou insuficientemente ocupados pelo próprio capital. É inclusive o avanço das frentes de expansão das sociedades nacionais sobre territórios não “incorporados”.

 

O capitalismo como ordem político-economômica mundial, impõe uma centralidade política além de uma divisão social, que através da máquina tecnológica, produz guerras, mundializando seus modos de produção e práticas culturais. Entretanto, ao mesmo tempo que sociedades se ocidentalizaram, seus fenômenos simbólicos resistem na experiência da fronteira. Trata-se da condição e da singularidade desses espaços onde os contornos não estão fixados, a América Latina, a África, o Caribe, o Leste Europeu, o Oriente Médio, regiões da Ásia e das periferias de muitos centros urbanos.

 

A fronteira é a fronteira do humano. A conquista de territórios é a busca pelo outro. A fronteira não é só a territorial e econômica na qual o capital avança, é a fronteira do pensamento que fagocita o outro.

 

São nesses espaços fronteiriços, onde visões de mundo se (des)encontram, que diferentes tempos históricos entram em conflito, produzindo disputas de grupos distintos, redefinição de limites, violência e resistência. Acreditamos que nesses lugares se dão de forma mais intensa conflitos político-ideológicos, étnicos e estéticos que influenciam diretamente modos de fazer e pensar o cinema.

 

A ideia da fronteira do humano desdobra-se na experiência do cinema, sobretudo, do cinema que enfrenta a indústria, feito em diversas partes do mundo, mas também profundamente marcado pela dimensão territorial.

 

As formas narrativas ficcionais consolidadas não nos representam! Motiva-nos a diversidade dos tipos de mise en scène, dos procedimentos de investigação e percepção da realidade humana. Interessa-nos o cinema do enfrentamento, da alteridade e do devir. O cinema como produção humana e não produção de mercadorias.

 

O cinema industrial hegemônico tenta expandir-se criando tentáculos de um certo cinema de arte e circuitos de grandes festivais que celebram tudo menos a diversidade. Mas a experiência da fronteira resiste! Nos excessos, nas exacerbações, mutações, subversões e descobertas de processos de liberação da imaginação, estados de intensidade.

 

A imaginação não é apenas mediadora entre o entendimento e a sensibilidade, ela possui um dinamismo próprio, livre de esquemas, corpos organizados, sujeitos constituídos, identidades fixas, psiquismos consolidados. É como pensa Luis Sérgio Duarte da Silva, na fronteira “aprendemos a viver com a contingência, a incompletude, a historicidade. Na terra onde tudo está por ser feito, a regra é o improviso do espadachim, a bricolagem do pensamento selvagem.”

 

Diante das formas predominantes da linguagem cinematográfica, no filme documentário se produz a instabilidade da câmera com aqueles que ela filma, e com aqueles que atuam com ela. O documentário será sempre potência, ontologia da presença da câmera, uma vez que é ela própria extensão do olho humano. Não nos importa o documentário da concessão, apropriado pela publicidade e pelo jornalismo!

 

Acreditamos nas fronteiras da linguagem. Por isso o filme experimental como uma tradição de bifurcações, sobreposições, experiências desgovernadas de narrativas e não-narrativas. O cinema experimental como aceitação de que a linguagem das imagens em movimento é capaz de reorganizar-se infinitamente em novas possibilidades e em novos tempos. O filme experimental coloca uma questão de percepção acima de toda estética, estilo ou ideologia.

 

Assim, buscando-se a partir de terrenos de impermanência, desejando provocar deslocamentos e oportunidades de livre experiência, o Fronteira – Festival Internacional do Filme Documentário e Experimental nasce em Goiânia, estado de Goiás, uma cidade da fronteira brasileira, zona cinzenta da civilização. Uma cidade plantada no meio do nada, construída na década de 1930 para modernizar o interior brasileiro, dividido entre poucas cidades pelas quais passava uma estrada de ferro, outras poucas do tempo do ouro, fazendas, cowboys, boiadas e índios.

 

Goiânia, entre a imagem de metrópole e de província, apesar de toda ideologia do progresso, é hoje pressionada pelos conflitos políticos, sociais e estéticos da fronteira, no qual enfrentam-se valores culturais tracidionais e modernos. Uma cidade nova que agencia ideias em trânsito, aberta para a aventura do não saber e do não poder fixar regras, porém, marcada pela opressão dos processos ampliados de acumulação do capital. Um ambiente no qual as fraturas de um extremo-ocidente saltam aos olhos. É aqui esse lugar onde nasce o Fronteira, desejo de atenção ao novo, à emergência, à atualidade, ao invés de fixar-se ao eterno.

 

Goiânia 1937

 

Henrique Aguiar Borela, Marcela Aguiar Borela, Rafael Castanhera Parrode