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Rua Aperana, 52: fotograma, fotodrama, fototrama
Fotograma, fotodrama, fototrama, três procedimentos conceituais para uma fenomenologia da luz, da luz no Cinema, da compreensão e apreensão da luz no Cinema. Fotograma, a inscrição de luz, é o solo onde está absorvida, fixada, a luz. Luz fixada em pasta química granulada, constituída por grãos sensíveis, onde a luz inscreve, deposita, seus sinais. Fotodrama, a ação da luz, a ação trágica da luz, define contornos, cria formas, inventa coisas, escreve além de si, dramatiza, objetos, rostos, ondas, seios, ilhas, nuvens, montanhas, corpos... Fototrama é o engendrar de sentidos, de ficções, de perdições, agrupados, organizados, projetados em um carrossel de luz. Musical mancha luminosa com suas forças, o fotograma, vazado pela luz que o projeta, perde sua transparente unidade, reduz a pedaços, reorganiza, a intensidade da luz. Na fixação desta nova harmonia luminosa, o encadeamento, a disposição, a afecção dos grãos no retângulo alumiado, formam o multicentro onde vive o movimento, a inquietude inventiva, as diferentes subjetividades e as contrastantes tonalidades emotivas... Precisam-se mais conhecimentos para o ler que para o escrever, dizia um antigo escritor. Penso que uma pequena fototeca ou um simples álbum de fotos de família nos sugere um ontem onde o hoje represa uma energia emotiva, passional, que nos arrasta em um movimento de recuo e avanço no tempo espaço. Abalo, tremor sensível do corpo, do corpo sensível, uma luminosidade fosfórica queima a película... O retrato nos faz pensar no retratado. Semelhança, contigüidade, causa, a crença decisiva, retomam fôlego, a inscrição rupestre agita- se, o fóssil respira, e com o luto, da perda dos retratados, o mundo inteiro se põe a movimentar. Vive o fotograma no Atlas da Memória. Sinal gravado em luz, interpretar, compreender sua montagem, sua figurabilidade, seu inconsciente, sua ruína e sua construção, seu permanecer e seu desaparecer, é tarefa para outra economia, a economia do fotodrama. Aí, ecologia, história, gesto, hábito, psicologia, música, o interdito, arquitetura, muros, colunas, varandas, escadas, portas, janelas, telhados, são a água onde se dissolve a alma espectral de alguém que se deixou figurar e figurar- se. Fototrama é a pista, no chão da selva, de uma fera indomável! Descida aos abismos e ao mesmo tempo subida ao mais alto céu da poesia e do desejo. A luz, em sua admirável penetração, revela ainda mais do que podemos ou devemos ver. Percurso, dentro dele próprio, de uma micrologia do grânulo afetado por percepção emotiva, fixação do controle e do descontrole no instantâneo de um momento. Dorida cicatriz impressa na folha ampliada do papel fotográfico permite ver quem não mais podemos ver, falar com quem não mais podemos falar. Sombra, assombração, encontro secreto do passado conosco, encontro secreto de imagens do passado com o agora, encontro também secreto onde o passado converge com o presente em plasticidade estelar... Uma fotografia tem muitos sentidos, e muitos modos de... ouvi-la. Quando estas fotografias são familiares, ostensivamente familiares, nota-se imediatamente a arte de esconder, ou melhor, o costume de esconder algum costume... São as fotografias também um momento de ilusão onde tudo faz aparentar bem estar, e, digamos, felicidade, naquele instante que logo se fixará. Contudo, esta cena feliz só existe para aquele e naquele clique relâmpago. O bem estar exibe o mal estar, começa então a transfiguração de algumas sombras. Uma ponte entre o nosso mundo e o além, mundo dos mortos, torna o visível invisível, se superpõe à estranha beleza do rosto feminino, brilhante de sedução, o horrível fascínio da morte. O visível desaparece. A memória, posta toda em alerta, devolve aos miúdos grãos de luz, sua matéria vital, esmaecida pelo roçar dos anos. Memória que se reconstrói ela mesma neste ir e vir da roda da fortuna... A luz, sua natureza metafísica e interpretativa, transborda no mundo como idéia. Idéia nua, idéia vestida, idéia encarnada. Fotograma, fotodrama, fototrama.
Julio Bressane |


