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Transmontagem
“salta comigo, neste batuque que esbarra com os astros”
A força a energia que escorreu e percorreu a Europa do final do século 19 até pouco depois da guerra de1914-18, e produziu todas as vanguardas européias, encontrou em Portugal, no poeta Fernando Pessoa, um dínamo. Um dinamograma. Pessoa morreu em 30 de novembro de 1935. Tinha 47 anos de idade. Sua impossibilidade e sua ausência em nossos dias são evidentes. Uma leitura detalhada, filológica, poética, de seus textos iniciou- se no Brasil no final dos anos 50. Ainda nos anos 70, Pessoa, aportou no Brasil, transversal, pelo cinema. Como atravessou o Atlântico o signo Fernando Pessoa? Esta é uma questão bastante estudada e pesquisada atualmente por especialistas na obra de Pessoa. Um sítio de escavação sensível. O transplante do tecido de fios heterodoxos da poesia pessoana, para película de fotogramas, desloca, deslimita, destranca o significante, Uma sonoridade provoca a metamorfose numa metamorfose. Pulsa aí a montagem, o ritmo, de uma representação ampliada, alterada. Poesia é uma forma privilegiada destinada a ouvidos privilegiados, pensava Pessoa. Como sugerir, em uma montagem de cinema, a eficiência máxima da expressão? A extravagância, além do limite do vagar, destas formas sutis? Um filme, uma leitura extra-européia, transatlântica, do inesgotável signo Pessoa, sua complexidade imaginária, sua geografia, sua poesia problemática, exigem montagem capaz de antever a onda espectral e fora do tempo que o determina. Montagem: espaço de pensamento, da memória e do mito, onde uma forma nova, uma relação nova organiza as imagens entre elas. O novelo insondável, indecifrável, inquietante, começa a desvelar?
Julio Bressane
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