Prova para os olhos”, assim os antigos astrônomos árabes chamavam as estrelas muito distantes, de pouco brilho, quase imperceptíveis, no céu.

O significativo detalhe insignificante, o pequeno gesto inconsciente, faz vibrar uma força potencializada, que subverte o sentido, o valor, a vida. Detalhe atômico e anatômico, onde se reúne a explosiva carga de intensidade patética. Eis o detalhe, “pequena verdade onde o céu se reflete” como sentiu um poeta português...

Na introdução do atlas sinfônico ”Mnemosyne”, lê- se, “ a criação consciente de uma distância entre você e o mundo é o que constitui o ato fundamental da civilização humana”.

Rua Aperana 52, luminoso rôlo de imaginação, invenção de uma paisagem, de uma geografia, de uma topologia, explorada por fotos e filmes realizados entre 1909 e 2009. Localizada no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, nesta rua deu- se um xadrez de ficções de cerca 15 filmes, filmados no mesmo espaço, no mesmo local, em tempos heterogêneos.

Uma paisagem intemporal e espiritualizada surge em cena, em cena inédita. Aperana (em tupi ”caminho provisório”), o nome abriga um sonho e um desejo, biografema, indício atribuído a biografia, mas que a transcende, a ultrapassa de muito.  

A lembrança, no contra-pelo do esquecimento, a memória, seus dédalos, o árduo trabalho de rememorização, recarregam o clichê com outras pulsões, que movimentam, projetam, impulsionam a montagem das imagens. Impulso aborígene, hereditário, pré- histórico.  

Alguma esperança no passado, em um tempo que não é mais o de agora, o cristal de um curto instante pessoal e do mundo, a potência de uma energia subversiva, retornam e retomam com forte carga! Rua, penhasco, mirante, mar, os filmes como engramas, ou seja, marcas duradouras e fundas no tecido espiritual de uma experiência passional. Jogo de olhares e planos ligados pelo recorte de uma paisagem, de um rincão local.

Aperana escapa ao limite dos filmes porque interroga seu próprio limite, sua própria substância.

Os penhascos rochosos são o farol de Alexandria, colosso mineral de uma resistência ao fim do mundo!!  

Conhecer uma paisagem quer dizer saber ler, saber ouvir, uma música, uma música de longa, muito longa, extremamente longa, longuíssima, duração...

 

 

Julio Bressane  

Penhasco,

Mirante, Mar, Rua Aperana 52