O primeiro plano de Our Sunhi é o da personagem título caminhando sozinha. Seu último plano é dos seus três pretendes juntos, mas ao mesmo tempo isolados (são concorrentes afinal) a falar sobre ela e o que registra, é menos a presença deles do que a ausência dela. O filme se propõe a registrar este movimento da presença a ausência, discute-se Sunhi o tempo todo - suas manias, suas vontades – procura-se encaixa-la nos mais diversos tipos de relacionamento (os três pretendes sugerem três gerações diferentes de cineastas, o professor veterano, o jovem cineasta em atividade e o aspirante) até que lhe cabe somente o papel de desaparecer.

Our Sunhi sugere uma refilmagem de Oki’s Movie (2010) no qual o motivo do filme dentro do filme é abandonado (Oki e Sunhi são interpretadas pela mesma atriz Jeong Yu-mi) por uma abordagem mais direta.  Uma das grandes surpresas do filme é como Hong abandona as molduras narrativas que vinham cada vez mais marcando seus trabalhos recentes. Se o seu filme anterior Nobody Daughter’s Haewon já sugeria um retorno a um cinema mais direto e impiedoso dos seus filmes iniciais, Our Sunhi leva tal projeto ainda mais adiante. O tom concentrado do filme se revela também na forma como ele mantem ao mínimo os zooms que se tornaram tão frequentes em seus filmes a partir do A Tale of Cinema. Se os filmes da segunda fase de Hong Sang-soo trabalham sempre na direção de reforçar sua construção (num processo que culmina na quase asfixia de In Another Country), Our Sunhi faz o caminho inverso, trata-se afinal de um filme sobre uma personagem que deseja se libertar do olhar imposto pelos seus pretendentes.

Não será acidente que o filme se construirá ate o momento do seu desenlace final como uma série de sequencias a dois. O corpo de Our Sunhi são cinco sequencias de mesa de bar/café do tipo que associamos sempre ao cinema de Hong no qual uma configuração variada de duas personagens bebe enquanto falam de sua relação de/com Sunhi. Numa delas a veterana dos filmes do diretor Ye Ji-won faz às vezes de testemunha silenciosa, nas demais a conversa a dois segue com raras interrupções do mundo externo como quando uma entrega de frango chega justo quando Sunhi e um dos seus pretendentes parecem ter estendido o embate até o limite.

O principio que guia Our Sunhi é justamente do até que ponto é possível localizar novas configurações para este encontro a dois. O filme busca modular formas cômicas e dramáticas novas para retrabalhar a situação, assim como tentar reconfigurar o espaço cênico de forma que cada novo encontro retome o principio de dois personagens frente a frente diante de uma mesa cheia de garrafas de soju com frescor. Estas sequências ocupam cerca de metade da duração do filme sem que ele jamais sugira reiteração. Na superfície Our Sunhi pode sugerir mais um filme de Hong Sang-soo que retrabalha o mesmo universo e motivos, mas o principio de construção é o oposto do que guia seus filmes anteriores, são as situações que ditam a necessidade por soluções cênicas no lugar do jogo de variações e repetições que tendem a dominar seus filmes.

Busca-se o encontro a dois porque Our Sunhi consiste neste embate constante de desejo e vontade. A crise do casal é uma crise de poder. Busca-se subjulgar aquele que se deseja o tempo todo nem sempre com consciência da violência que se pratica. A Sunhi cabe recusar a função de reles personagem do imaginário daqueles três homens. Nos últimos quatro anos, Hong Sang-soo se moveu na direção do olhar dos seus personagens femininos, aquela exposição do embaraço do libido do homem que herdara de Jean Eustache e que primeiro chamou a atenção do espectador ocidental, se torna ainda mais amarga agora que aos seus cineastas sequer cabe ditar o olhar da ação (e são sempre cineastas não só por mero capricho autobiográfico mas porque se reconhece que as questões de poder do casal e da representação cinematográfica se aproximam). Filmam-se duas pessoas a se encontrar porque o encontro aqui será sempre um combate de olhares, de Sunhi com seus pretendentes e deles entre si, uma batalha impiedosa de poder entre as partes. Our Sunhi é um dos filmes mais engraçados de Hong Sang-soo, mas seu humor esconde um caráter dos mais impiedosos, seus encontros de olhares são sempre incompletos, sua protagonista cabe sempre à fuga, a procura de um escape. O filme só encontra a calmaria naquele plano inicial de Sunhi sozinha e no final dos três homens solitários.

Neste filme em que se fracassa na busca pela intimidade o tempo todo, é natural que tudo se passe em espaços públicos. Exceto por duas rápidas sequencias em que um personagem é interrompido no seu apartamento para ser chamado para beber, estamos sempre em ruas estreitas, bancos de parque, mesas de bar. As personagens estão sempre apresentadas num palco. Por outro lado Our Sunhi é um dos filmes mais desabitados do cineasta, há uma ausência quase completa de extras. As ruas, o parque, o café, tudo permanece vazio.  Salvo pelos coadjuvantes que trabalham nos bares, não cabe a Sunhi e seus pretendentes cruzar com mais ninguém, sejam amigos sejam estranhos. Cria-se um mundo mais seco do que em outros filmes do diretor, sem os mesmos desvios e pontas soltas. A concentração maior neste embate a dois tem como contraponto um mundo menos imaginado do que o habitual. São eles próprios personagens esvaziados dos quais sabemos apenas o essencial: de que ela quer continuar os estudos longe dali, de que eles a desejam. Fala-se muito da história pregressa de cada um mas elas sempre desembocam em Sunhi, “meus filmes serão sempre sobre você”, o um dos cineastas promete. Todos os quatro existem somente para o embate, para poderem ser colocados nos planos a dois do filme, colocar em movimento o seu confronto de poder. Reforça-se o caráter teatral destes encontros. Tudo que não for essencial, que não pertencer ao corpo a corpo deste confronto de olhares e vontades será mantido fora de plano. Reforça-se sempre o duplo, os personagens frente a frente geralmente sentados num mesa ou banco, mas também a oposição do externo (o banco do parque) e interno (a mesa do bar/café) ou as duas cartas de recomendação que o professor escreve para Sunhi com olhares muitos distantes e irreconciliáveis sobre ela. Na sequência final os três pretendentes trocam impressões sobre Sunhi e elementos de ambas as cartas são apresentadas como se a reforçar a impossibilidade de reter dela nada além da sua ausência, do desejo escorregadio pela fuga.

 

 

Filipe Furtado